Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > PAAS > Surdocegos notáveis
Início do conteúdo da página

Surdocegos notáveis

Publicado: Quinta, 26 de Janeiro de 2017, 16h16 | Última atualização em Quinta, 16 de Agosto de 2018, 16h20 | Acessos: 3675

Laura Bridgmam, nascida em 1829, é conhecida como a primeira pessoa surdocega educada com sucesso no mundo. Desde então, a resumida literatura sobre o desenvolvimento da pessoa surdocega vem demonstrando que, quando esses indivíduos têm a oportunidade de receber a devida atenção em algum Centro ou Serviço onde são oferecidos programas de atendimento especializado, é possível encontrar nessa comunidade pessoas realizadas e participantes, em diferentes países.

Os exemplos a seguir não deixam qualquer dúvida quanto à predisposição que todos os indivíduos trazem consigo de superar suas limitações sempre que lhes são oferecidas oportunidades de novas experiências.

1 - Laura Bridgmam (1829 – 1889)

Laura Bridgam

 Natural do estado norte-americano de New Hampshire, Laura Bridgmam é conhecida como a primeira pessoa surdocega educada com sucesso. Nascida sem nenhuma deficiência, aos dois anos de idade Laura contraiu escarlatina, que lhe tirou quase todos os sentidos  – visão, audição, paladar e olfato – restando-lhe somente o tato. 

Foi através do toque que a menina procurava dar sentido ao seu mundo, seja explorando as pessoas e objetos à sua volta, seja se comunicando através de uma linguagem de sinais rudimentares que ela desenvolveu. 

Mesmo com todo esse esforço pessoal, a comunicação entre Laura e a família era muito limitada, o que provocava acessos de raiva pela dificuldade em se expressar. Até que em 1837, a família recebeu uma proposta que mudaria definitivamente a vida da menina e impactaria também a educação da pessoa surdocega nos Estados Unidos e no mundo.

Ao conhecer o caso de Laura, o então diretor da Escola Perkins para Cegos, de Massachussets, Samuel Gridley Howe, decidiu enfrentar o desafio de educá-la. Essa seria uma experiência pioneira, já que naquela época as pessoas surdas eram consideradas irremediavelmente inacessíveis.

A metodologia utilizada por Howe descartou a expansão dos sinais e concentrou-se no ensino do Inglês, primeiramente através da apresentação de objetos familiares com rótulos escritos em relevo; em uma etapa posterior, os rótulos eram apresentados sem os objetos para que ela os associasse aos respectivos objetos. 

Quando a menina percebeu que os objetos tinham nomes, começou a querer saber o nome de tudo à sua volta, num processo de descoberta da comunicação plena através de uma linguagem acessível à todos. O passo seguinte foi aprender o alfabeto manual, permitindo uma comunicação mais rápida, sem o corte de letras. 

Com o domínio da linguagem e a assistência de um professor que lhe traduzia em sinais o conteúdo da sala de aula, Laura pôde cumprir um currículo praticamente igual aos dos demais alunos da Escola Perkins. Todo o processo educacional de Laura foi registrado e publicado. O escritor britânico Charles Dickson foi à Escola Perkins especialmente para conhecê-la e contar sua história ao mundo, tornando-a internacionalmente famosa.

A instrução de Laura na Perkins foi iniciada aos 8 anos de idade e finalizada aos 20. Depois disso, voltou para a casa dos pais e também para o isolamento, já que a rotina dos pais, agricultores humildes, não propiciava uma boa interação com a jovem. Ao perceber o problema, Howe conseguiu uma dotação financeira especial para garantir que a jovem tivesse um lar permanente na Perkins. Lá ela dividia as acomodações com os demais alunos, contribuía nas tarefas domésticas, escrevia compulsivamente, vendia seu bordado para doar o dinheiro aos pobres, até morrer, aos 59 anos de idade. 

 

2 - Bertha Galeron de Calonne (1859 - 1936)


Nasceu em Paris, França, no ano de 1859. Filha de uma família importante naquela época – seu bisavô era ministro das Finanças do rei Luís XVI e seu pai professor de literatura no Liceu de Rennes – ela tinha um futuro muito confortável à frente. Mas quando tinha 11 anos contraiu febre tifoide que a deixou cega e parcialmente surda.

Para que se educasse, Bertha foi entregue aos cuidados das irmãs de São Vicente de Paula especializadas no ensino de crianças cegas, com foco na música e na poesia.  Assim, mesmo com a audição cada vez mais reduzida, a jovem conseguiu se educar, passando a se dedicar à literatura em geral e à poesia em particular, mesmo quando ficou totalmente surda, por volta dos 30 anos de idade. 

Casou-se com o renomado arquiteto Albert Galeron, da Escola de Belas Artes, e o acompanhou por toda a Europa, fazendo amizades com personalidades importantes, como a rainha Elizabeth da Romênia, com quem manteve abundante correspondência. 

Quando o marido morreu, em 1930, se mudou para a pequena vila de Dangu, na região francesa da Normandia, onde possuía uma casa de praia e lá viveu até morrer em 1936.

A obra literária de Bertha é pequena, mas importante o suficiente para que seja considerada como uma das maiores poetisas francesas do século XIX. Seu livro mais famoso é a coletânea de poemas Dans ma nuit, aclamado por escritores de renome como os poetas Stéphane Mallarmé e Victor Hugo. Além desse, escreveu também peças de teatro, além de um livro de memórias inacabado. 

  

3 - Ragnhild Kaata (1873 - 1947)

RAGNHILD KAATA

Primeira pessoa surdocega norueguesa a receber educação especializada, Ragnhild Kaata nasceu em Vestre Slidre, no dia 23 de maio de 1873. Aos quatro anos de idade contraiu escarlatina e, como sequelas da doença, perdeu não só a visão e a audição como o olfato e o paladar.  

Aos 14 anos, foi admitida como aluna interna no Instituto para Surdos de Hamar - Noruega – cujo diretor, Elías Hofgard, assumiu a tarefa de educá-la, utilizando o “método de falar”, que ele já havia empregado com sucesso em diversos alunos surdos talentosos.

Hofgaard primeiro ensinou Kaata a pronunciar as letras através da repetição das vibrações sonoras sentidas com o toque na garganta. Depois a combinar duas letras em uma sílaba, e finalmente palavras multi-silábicas antes de tentar anexar significado ao que até então tinha sido apresentado como um jogo complicado. As primeiras palavras utilizadas foram: ur (relógio), fot (pé) e bord (tabela). As palavras foram associadas com os objetos durante vários dias até que Ragnhild entendeu que as palavras designavam objetos.

Depois disso, Kaata aprendeu a entender as outras pessoas colocando a mão em seus lábios enquanto falavam e, por fim, a escrever e a ler Braille. A partir de então, a menina pôde ampliar seus conhecimentos para áreas como Geografia, Gramática, Aritmética, entre outras. 

Entretanto, o que mais gostava era desenvolver atividades de trabalhos manuais. Sua extrema habilidade em tecer qualquer tipo de trama, fazer meias e os mais variados artigos de malha, lhe permitiu ganhar seu próprio sustento quando saiu do Instituto de Hamar, aos 22 anos.

Quando seu pai morreu, Kaata foi morar com uma de suas irmãs. Morreu em 1947, aos 72 anos, depois de um ataque de bronquite.  Ela foi descrita como uma pessoa sorridente, bem humorada e com uma fé inabalável em Deus.

 

  4 - Helen Keller (1880 - 1968)


Helen KellerÉ, sem dúvida, a mais conhecida e um dos mais extraordinários exemplos de coragem e força de vontade. Com a inestimável ajuda de sua incansável professora Anne Sullivan, mostrou ao mundo as imensas possibilidades do ser humano.

Nascida no estado norte-americano do Alabama, Helen Keller perdeu a visão e a audição quando tinha 1 ano e meio de idade em consequência da escarlatina. Anne Sullivan Macy, indicada por Alexandre Graham Bell - amigo da família - para educar a pequena Helen, iniciou seu trabalho tentando estabelecer a comunicação com a criança ao relacionar os objetos às palavras através da soletração do alfabeto manual.

Helen, que nessa ocasião não havia completado ainda os 7 anos, aprendeu a soletrar várias palavras, com o uso das mãos, embora nenhum indício levasse a crer que a criança tivesse consciência do significado delas. Foi quando Anne Sullivan colocou as mãos de Helen Keller sob a água que era bombeada do poço e soletrou a palavra “água” com o alfabeto manual, que os sinais atingiram sua mente com um significado claro. Ao fim daquele dia, Helen já estabelecera a relação de 3 dezenas de palavras com os objetos do mundo ao seu redor. Logo, ela aprendeu os alfabetos braille e manual e, aos 10 anos, iniciou a aprendizagem da fala.

Uma vez iniciada, a escalada de Helen em busca de novos conhecimentos não parou mais. Assim, aos 24 anos recebeu seu diploma de Filosofia na Universidade Radcliffe e, continuando sua trajetória, fez jus, ao longo de sua vida, a inúmeros títulos, homenagens e diplomas honorários em reconhecimento por seu trabalho em prol do bem estar das pessoas cegas e surdocegas e, sobretudo, pelo exemplo vivo das imensas e ricas possibilidades do potencial humano.

Entre 1946 e 1957, Helen Keller visitou 35 países, inclusive o Brasil, onde esteve em diversas entidades públicas e particulares. Realizou palestras, participou de conferencias e mesas-redondas, foi entrevistada e recebeu homenagens. Por essa ocasião, em maio de 1953, quando de sua visita ao Rio de Janeiro, esteve no Instituto Benjamin Constant, onde recebeu carinhosas homenagens de alunos e funcionários.

No dia de sua morte, o Senador Lister Hill, do Alabama, assim se expressou:

 “Seu espírito perdurará enquanto o homem puder ler e histórias puderem ser contadas sobre a mulher que mostrou ao mundo que não existem limitações para a coragem e a fé”.

 

 5 - Eugenio Malossi (1885 - 1930)


Eugenio MalossiNascido em Avellino, Itália, Eugênio Malossi perdeu a visão e a audição quando, aos dois anos de idade, contraiu meningite. Em 1895, teve início sua educação graças à dedicação do professor Francisco Artusio, do então recém fundado “Instituto Domenico Masturcelli”.

Ainda adolescente produzia, em seu bem equipado ateliê, os mais variados trabalhos de artesanato e, deixando aflorar sua vocação pela mecânica, consertava qualquer máquina que apresentasse algum problema. Porém, sua sede de saber não se limitava ao artesanato e à mecânica.

Assim, com a ajuda de uma amiga, chegou a aprender vários idiomas, o que lhe possibilitou ler, no Sistema Braille, obras de mecânica de diversos autores estrangeiros e a se corresponder com sua grande amiga americana, Helen Keller, surdocega como ele. 

Seu talento como inventor e educador o fez mestre na área da mecânica, a ponto de receber o título de Cavaleiro da Coroa do Reino da Itália, em 1923. Aos 40 anos, foi nomeado professor de mecânica do “Instituto Paolo Colosimo”, em Nápolis, onde, com sua personalidade enérgica e firme, desenvolveu um trabalho preciso e profícuo.

Ensinou também outros deficientes auditivos a falar, como a menina surda Anna Tamasco, aperfeiçoando o método ensinado a ele próprio pelo professor Artusio.

Outra contribuição importante de Malossi foi o sistema de comunicação para surdocegos já alfabetizados, que consiste na marcação das letras do alfabeto e dos algarismos de 0 a 9 nas falanges dos dedos e na palma de uma das mãos. Cada falange corresponde a uma letra do alfabeto. A formação de palavras se dá pelo toque no espaço destinado à letra, podendo-se usar uma luva com as letras e números impressos, indicando os lugares que devem ser tocados.

Em 1928,  Malossi foi nomeado "professor" da mecânica, morrendo dois anos depois devido a uma súbita e violenta pneumonia.

 

 6 - Olga Ivanovna Skorojodova (1914 - 1987)

OLGA IVANOVNA SKOROJODOVA  Nasceu numa aldeia ao Sul da Ucrânia. Aos cinco anos de idade, teve meningite e, como sequela da doença, ficou surda, cega e paralítica. Com grande esforço conseguiu voltar a andar com a ajuda de uma muleta que às vezes usava como bengala.

Dotada de férrea força de vontade e ardente desejo de aprender, aos 11 anos de idade começou a ser educada pelo professor Ivan Sokolyanski, chegando mais tarde a doutorar-se em Psicologia e Ciências Pedagógicas.

Olga gostava de corresponder-se com pessoas cultas, tendo conservado algumas cartas que lhe escreveram várias personalidades. Dentre estas destaca-se uma datada de 3/1/1933, e assinada pelo conhecido escritor Gorki: “Querida Olga, sua vida é simplesmente um milagre; um desses maravilhosos vetores de luz tanto do nosso trabalho como de todo espírito elevado.”

Ao longo dos seus 73 anos de vida publicou várias obras, muitas delas traduzidas para diversas línguas. No livro Como percebo e imagino o mundo que me cerca, ela descreve suas impressões da natureza e da vida cotidiana: “Sinto que uma vida intensa se desenvolve ao meu redor e anseio participar dela como todos os seres humanos”.

 

 7 - Cesar Torres Coronel (1917 - 1985)

Nascido em Madrid, tinha 22 meses de vida quando perdeu a visão e a audição em consequência da varíola. 

Iniciou seus estudos aos sete anos, no Colégio Nacional de Surdomudos e Cegos, na mesma Madrid, sob a orientação da excepcional pedagoga Rafaela Rodrigues Placer, que durante 13 anos se dedicou inteiramente à educação do rapaz. Assim, Cesar obteve o título de Bacharel no “Instituto Cardenal Cisneros”, graças a uma férrea força de vontade e ao incentivo e orientação de sua mestra.

Fiel cumpridor de suas obrigações, respeitado e querido tanto pelos seus superiores como por seus colegas de trabalho, viveu dignamente até o fim de sua vida unicamente de seu salário.

 

8 - Robert J. Smithdas (1925 - 2014)

 

Robert Smithdas

Nasceu em Brentwood, no estado da Pensylvania, Estados Unidos, no dia 7 de junho. Ficou cego e mais tarde totalmente surdo, em consequência da meningite, quando tinha 4 anos e meio de idade.

Frequentou a Western Pennsylvania School for the Blind e a Perkins School for the Blind em Watertown, Massachusetts. Graduou-se com honras da Universidade St. John's em Queens, em 1950 e em 1953 obteve um mestrado pela Universidade de Nova York em orientação profissional e reabilitação de pessoas com deficiência. 

Smithdas também foi um autor e poeta. Ele foi nomeado Poeta do Ano em 1961 pela Sociedade de Poesia da América, e suas obras publicadas incluíram duas coleções de poesia: City of Heart (1966) e Shared Beauty (1983).

Durante muitos anos, foi diretor de Serviços para Surdocegos na "Casa Industrial para Cegos" em Nova York. Em 1977, assumiu o cargo de diretor de Educação Comunitária do Centro Nacional Helen Keller, onde conheceu sua esposa, Michelle, surdocega como ele. 

Robert Smithdas aposentou-se em dezembro de 2008, morrendo em 2014, aos 89 anos. A eminente jornalista Barbara Walters considerou a entrevista que fez com ele como sendo a mais memorável de sua carreira.

Em sua homenagem, o Centro Nacional Helen Keller criou o Fundo Smithdas para financiar a educação de pessoas surdocegas que não tenham condições de arcar com os custos de frequentar a instituição.

 

 9 - Valise Amadescu (1944)

Nasceu na România, no dia 4 de setembro. Perdeu a visão e a audição em conseqüência da meningite, quando tinha dois anos e meio de idade. Aos 11 anos, iniciou sua educação na Escola Especial para Cegos, em Cluj Romania. Lá, com sua enérgica professora Miss Florica Sandu, aprendeu a falar e adquiriu os conhecimentos básicos.

Mais tarde, com a ajuda de outros professores, alargou seus conhecimentos estudando História, Literatura, Geografia, Matemática e Física. Formou-se em Psicopedagogia na Universidade de Cluj. Logo a seguir, empregou-se como professor na Escola Especial para Cegos, na mesma cidade, onde exerce a função com a ajuda de sua professora Georgeta Damian. 

 “Eu estou convencido que o caminho que eu escolhi, embora bastante difícil, pode ser trilhado com sucesso por qualquer pessoa deficiente”, disse o professor.

 

 

 

 

 

Fim do conteúdo da página