Entre Palavras Língua Portuguesa 8ª Série Mauro Ferreira Especialista em Metodologia do Ensino pela UNICAMP, professor de Língua Portuguesa e Redação há mais de quinze anos e autor de livros didáticos. Impressão braille em 5 partes, São Paulo, 1998, da Editora FTD S.A. Segunda Parte Ministério da Educação Instituto Benjamin Constant Divisão de Imprensa Braille Av. Pasteur, 350/368 -- Urca 22290-240 Rio de Janeiro RJ -- Brasil Tel.: (0xx21) 2543-1119 Fax: (0xx21) 2543-1174 E-mail: ~,ibc@ibcnet.org.br~, ~,http:ÿÿwww.ibcnet.org.br~, -- 2003 --

ISBN 85-322-4345-2 Editora: Maria Cecília Mendes de Almeida Editora assistente: Maria Helena Ramos Lopes Revisão: Adriana Rinaldi Périco; Iracema Santos Fantaguci; Maria de Fátima Cardoso Todos os direitos de edição reservados à Editora FTD S.A. Matriz: Rua Rui Barbosa, 156 (Bela Vista) São Paulo -- SP -- CEP 01326-010 -- Tel.: (0xx11) 3253-5011 -- Fax: (0xx11) 3284-8500 r: 206 Caixa Postal 65149 -- CEP da Caixa Postal 01390-970 Internet: ~,http:ÿÿwww.ftd.com.br~, E-mail: ~,portugues@ftd.com.br~,

¨ I Índice Segunda Parte UNIDADE 3 OUVIR E FALAR :::::::::: 81 LER ::::::::::::::::::::::: 82 *Gota d'água* ¨ (Chico Buarque de ¨ Holanda e Paulo ¨ Pontes) :::::::::::::: 83 ESTUDO DO TEXTO ::::: 93 A LINGUAGEM DO ¨ TEXTO :::::::::::::::: 97 DEBATER ::::::::::::::::::: 102 ESCREVER :::::::::::::::::: 103 GRAMÁTICA ::::::::::::::::: 106 *Estudo da palavra* :::::: 106 ¨ -- FORMAÇÃO DE ¨ PALAVRAS ::::::::::::: 108 ¨ • DERIVAÇÃO ::::::::: 108

*A oração no ¨ período* ::::::::::::::: 117 ¨ -- ORAÇÕES ¨ COORDENADAS :::::::::: 117 ¨ • TIPOS DE ¨ ORAÇÕES ¨ COORDENADAS :::::::: 119 ¨ CLASSIFICAÇÃO ¨ DAS ORAÇÕES ¨ COORDENADAS :::::::::: 120 APRENDER MAIS ::::::::::: 129 *Leitura complementar: ¨ Teatro no Brasil ¨ (Nova enciclopédia ¨ ilustrada Folha)* :::: 129 UNIDADE 4 LER ::::::::::::::::::::::: 135 *Recado ao senhor 903* ¨ (Rubem Braga) :::::: 135 ESTUDO DO TEXTO ::::: 139 A LINGUAGEM DO ¨ TEXTO :::::::::::::::: 142 VER ::::::::::::::::::::::: 146 DEBATER ::::::::::::::::::: 148 ESCREVER :::::::::::::::::: 149

¨ III GRAMÁTICA ::::::::::::::::: 152 *Estudo da palavra* :::::: 152 ¨ -- FORMAÇÃO DE ¨ PALAVRAS ::::::::::::: 152 ¨ • COMPOSIÇÃO :::::::: 152 ¨ -- OUTROS PROCES- ¨ sos DE FORMAÇÃO :::: 157 ¨ • ONOMATOPÉIA ::::::: 157 ¨ • SIGLA ::::::::::::: 158 *A oração no período* :::: 163 ¨ -- ORAÇÕES SUBOR- ¨ dinadas :::::::::::::::: 163 ¨ • ORAÇÕES SUBOR- ¨ dinadas SUBSTAN- ¨ tivas :::::::::::::::: 165 ¨ CLASSIFICAÇÃO ¨ DAS ORAÇÕES ¨ SUBORDINADAS ¨ SUBSTANTIVAS ::::::::: 168

<50> UNIDADE 3 OUVIR E FALAR OUVIR Ouça atentamente a leitura do texto. A seguir, serão feitas algumas perguntas a respeito de seu conteúdo. <51> FALAR 1- No texto, há referências a Dionísio. Quem era ele, em que local era homenageado na Grécia e que tipos de homenagens lhe eram feitas? 2- Por que as peças teatrais realizadas pelos jesuítas no início da colonização do Brasil são classificadas como didáticas? 3- Quem foi Martins Pena? Quais são as características de suas peças?

4- O texto faz referência a alguns tipos de temas abordados em peças teatrais. Cite pelo menos dois deles. 5- Que manifestações artísticas se inter-relacionam na representação de uma peça teatral? 6- Qual é, segundo o texto, o principal objetivo do teatro? 7- Você já assistiu a alguma peça de teatro? Se já, fale um pouco a respeito dela. Se assistiu a mais de uma, fale da que você mais gostou. õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo LER Na peça teatral *Gota d'água*, o sambista Jasão abandona a mulher e está para se casar com a filha de Creonte. Creonte, empresário ganancioso, é proprietário de um conjunto de apartamentos populares que estão sendo comprados, a prestações, pela ex-mulher de Jasão e por ex-amigos dele. Na passagem que vamos ler, Jasão, que virá a ser herdeiro da fortuna de Creonte, tenta convencer o futuro sogro a usar uma estratégia mais lucrativa para melhor explorar os compradores dos apartamentos. <52> *Gota d'água* Jasão: O que é que eu tenho que lhe interessa? Creonte: Me interessa? Pra quê?... Jasão: Pra me aceitar como teu genro... Creonte: Você?... Bem, Jasão, pra ser sincero, você não tem nada... Bom... "nada" é só uma força de expressão [...] Jasão: Mas vai ter uma hora da verdade, quer dizer, vai ter a hora que alguém vai ter que tomar conta do negócio, alguém que vai sentar nessa cadeira... Se o teu herdeiro é só de samba e ócio (1), sentá-lo ali é uma grande besteira Creonte: Você se esquece que inda estou bem vivo Não morro sem deixar um bom ativo (2) pra você movimentar... Eu te ensino Jasão: Quero negociar de igual pra igual Entro na firma com meu capital Sabe quanto eu tenho? Creonte: Boa, menino... Malandro de repente, eu já sabia que tinha carne embaixo desse angu Jasão: Sabe qual é?...

Creonte: O quê? Jasão: Minha valia (3)? Creonte: Qual é?... Jasão: Seu Creonte, [...] Do povo eu conheço cada expressão, cada rosto, carne e osso, o sangue, o couro... Sei quando diz sim, sei quando diz não, eu sei o seu forte, eu sei o seu fraco, eu sei a elasticidade do seu saco Eu sei quando chora ou quando faz fita Eu sei quando ele cala ou quando grita E o que ele comeu na sua marmita, eu sei pelo bafo do seu sovaco Eu conheço sua cama e o seu chão Já respirei o ar que ele respira A economia para a prestação da casa, eu sei bem de onde é que ele tira Eu sei até que ponto ele se vira Eu sei como ele chega na estação Conheço o que ele sente quando atira as sete pedras que ele tem na mão <53> Permita-me então discordar de novo. que o senhor não sabe nada de povo. seu coração até aqui de mágoa E povo não é o que o senhor diz, não Ceda um pouco, qualquer desatenção faça não, pode ser a gota d'água. Creonte: Muito bem. É com esse capital, seu Jasão, que você quer ser meu sócio? Jasão: É. Tem que ceder um pouco. Afinal está em jogo todo o seu negócio.

Creonte: Ceder o quê? Tu és sócio ou rival? Jasão: Não fique pensando que o povo é nada, carneiro, boiada, débil mental, pra lhe entregar tudo de mão beijada Quer o quê? Tirar doce de criança? Não. Tem que produzir uma esperança de vez em quando pra a coisa acalmar e poder começar tudo de novo Então, é como planta, o povo, pra poder colher, tem que semear Chegou a hora de regar um pouco Ele já não lhe deu tanto? Em ações, prédios, garagens, carros, caminhões, até usinas, negócios de louco... Pois então? Precisa saber dosar os limites exatos da energia

Porque sem amanhã, sem alegria, <54> um dia a pimenteira vai secar Em vez de defrontar Egeu no peito, baixe os lucros um pouco e vá com jeito, bote um telefone, arrume uns espaços pras crianças poderem tomar sol Construa um estádio de futebol, pinte o prédio, está caindo aos pedaços Não fique esperando que o desgraçado que chega morto em casa do trabalho, morto, sim, vá ficar preocupado em fazer benfeitoria [...] Com seus ganhos, o senhor é que tem que separar uma parte e fazer melhorias. Não precisa também ser o Palácio da Alvorada, ser páreo pr'uma das sete maravilhas do mundo. Encha a fachada de pastilhas que eles já acham bom. Ao terminar, reúna com todos, sem exceção, e diga: ninguém tem mais prestação atrasada. Vamos arredondar as contas e começar a contar só a partir de agora... Creonte: Enlouqueceu! Jasão: Ninguém... Creonte: Não dá... Jasão: Como não dá? Já deu! Ninguém... Ninguém... precisa me pagar os atrasos... É bonificação (4) Mas... Mas... Atenção pro que eu vou falar... Aí o senhor pode vociferar (5) pra ninguém mais atrasar prestação... Está com receio de mestre Egeu? Que já fez política, se meteu em greve no passado e tal? Isola!

Prestação em dia, prédio limpinho, Egeu vai ficar falando sozinho enquanto o povo está jogando bola! (Creonte faz um ruído com a boca, debochando de Jasão) Creonte: Muito bem. Gostei do plano, menino É caro. Preciso dum pequenino empréstimo pra fazer essa festa [...] Quem é que vai pagar? Eu estou duro... Jasão: Quem vai pagar, Creonte, é o futuro... Creonte: Ahn, o futuro [...] <55> Jasão: O senhor vai tomando essas providências que reacende a chama. Vai ver que o trabalho rende mais, daí eles ganham confiança, alimentam uma nova esperança,

o moral se eleva, a tensão relaxa... Aí é que o senhor aumenta a taxa Com as melhorias eles vão ter energia bastante pra mais dez anos. Dez anos passam sem doer, sem jogar pedra e sem bater os pés Em um ano só, um ano de aumento na taxa, o senhor vai buscar, com sobras, o dinheiro gasto no empreendimento: no telefone, no jardim, nas obras, no perdão às prestações em atraso... Agora, se quiser ver, por acaso, quem ganhou nesta simples transação (6) é só contar. Eles lhe dão dez anos, o senhor dá um só pelos meus planos... Fica com nove, a parte do leão.

(À medida que falava, sem que Creonte e o próprio Jasão se dessem conta, Jasão sentou-se na cadeira-trono de Creonte; um tempo; quando Jasão acaba de falar, Creonte está de pé, pensativo [...]) (Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes. *Gota d'água*. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.) SOBRE OS AUTORES Chico Buarque de Hollanda é um dos mais conhecidos e respeitados compositores da Música Popular Brasileira. Escreveu também romances (*Fazenda-modelo, Estorvo e Benjamim*) e as peças teatrais *Gota d'água, Calabar* e *Roda viva*. Paulo Pontes nasceu na Paraíba em 1940 e morreu no Rio de Janeiro em 1976. Escreveu, entre outras, as peças *Opinião, O repouso da guerreira, Edifício chamado 200* etc. A PALAVRA NO TEXTO 1. ócio: desocupação; folga; preguiça 2. ativo: conjunto de bens (imóveis, dinheiro etc.) 3. valia: valor; o quanto vale algo ou alguém 4. bonificação: desconto; diminuição de parte de um valor a ser pago 5. vociferar: gritar com raiva; esbravejar 6. transação: negociação <56> ESTUDO DO TEXTO 1- Qual é o primeiro argumento de Jasão para tentar convencer Creonte a aceitá-lo como sócio na administração dos negócios? 2- Releia estas falas. Jasão: "Quero negociar de igual pra igual Entro na firma com meu capital Sabe quanto eu tenho?..."

Creonte: "Boa, menino... Malandro de repente, eu já sabia que tinha carne embaixo desse angu" ¨ Diante da proposta do futuro genro, Creonte mostra-se surpreso. O que ele quer dizer com "eu já sabia/que tinha carne embaixo desse angu"? 3- O "capital" que Jasão afirma ter é do tipo que Creonte imaginou? Justifique. 4- Releia. "Tu és sócio ou rival?" ¨ O que leva Creonte a supor que Jasão fosse seu rival? 5- Releia a nona fala de Jasão ("Não fique pensando [...]") e responda. a) Segundo ele, que estratégia Creonte deveria adotar para melhor explorar os moradores do conjunto residencial? b) Transcreva, dos três ditados populares a seguir, o que melhor

resume as sugestões de Jasão a Creonte. • Mais vale um pássaro na mão que dois voando. • De grão em grão, a galinha enche o papo. • Não se deve matar a galinha dos ovos de ouro. 6- Releia a última fala de Jasão e aponte qual seria o resultado final do plano que ele propõe a Creonte. 7- Leia estes verbetes. *Populismo* s.m. 1. Gênero literário que tem o povo como tema. 2. Simpatia pelo povo. 3. Atitude baseada na realização de atos que agradem aos grupos sociais mais pobres, objetivando obter deles simpatia, gratidão e, conseqüentemente, apoio político. *Maquiavelismo* s.m. 1. Sistema político proposto pelo italiano Nicolau Maquiavel e baseado no princípio de que, para atingir um objetivo, é válido empregar todos os recursos, mesmo que sejam imorais ou ilegais. 2. Procedimento traiçoeiro, ardiloso, velhaco, enganador. <57> ¨ A estratégia de Jasão para explorar os moradores pode ser considerada populista e maquiavélica. Por quê? 8- Quando um autor escreve uma peça de teatro, ele vai encaixando, entre os diálogos, algumas indicações para orientar os atores no momento em que forem encenar a peça. ¨ Essas indicações chamam-se *rubricas*. ¨ A rubrica do final do texto em estudo indica que Jasão sentou-se na *cadeira-trono* de Creonte. Releia a terceira fala de Jasão e explique o que simboliza o fato de ele sentar-se na cadeira do futuro sogro. 9- Se você fosse um dos ex-amigos de Jasão e morador do conjunto residencial, como reagiria se tomasse conhecimento do plano que ele propôs a Creonte? Por quê? A LINGUAGEM DO TEXTO 1- Jasão e Creonte empregam várias *frases feitas* -- construções muito comuns na linguagem cotidiana e conhecidas por todos os falantes. ¨ Explique o significado das que aparecem em destaque. a) "Não fique pensando que o povo é nada,/carneiro, boiada, débil mental,/pra lhe *entregar tudo de mão beijada*." b) "Quer o quê? *Tirar doce de criança*?" c) "Ceda um pouco, qualquer desatenção/faça não, pode ser a *gota d'água*." d) "Eles lhe dão dez anos,/o senhor dá um só pelos meus planos.../Fica com nove, *a parte do leão*."

2- É comum, na linguagem coloquial, o falante dirigir-se ao interlocutor empregando diferentes pessoas gramaticais. ¨ Releia este trecho. Creonte: Muito bem. É com esse capital, seu Jasão, que você quer ser meu sócio?" Jasão: É. Tem que ceder um pouco [...] Creonte: Ceder o quê? Tu és sócio ou rival?" a) Compare as falas de Creonte e transcreva delas dois pronomes e duas formas verbais que exemplificam a mistura de tratamento. b) A linguagem das personagens é importante para aproximá-las das pessoas de existência real. ¨ O modo de falar de Creonte, em que se notam frases feitas e erros gramaticais, favorece ou prejudica essa aproximação? Justifique. <58>

3- Compare. • "*Em vez de* defrontar Egeu no peito,/baixe os lucros [...]" *em vez de* significa "em lugar de" e indica *substituição*. • Jasão sugeria a Creonte que, *ao invés de* matar as esperanças dos devedores, deveria reavivá-las. *ao invés de* significa "ao contrário" e indica *oposição*. ¨ Agora reescreva as frases, substituindo convenientemente a lacuna por *em vez de* ou *invés de*. a) O rapaz acelerou o carro, que, ''''' avançar, foi para trás. b) A festa, ''''' começar às oito horas, começou às dez. c) O garoto cortou o dedo, mas, ''''' chorar, começou a rir. d) Sábado, ''''' sair para passear, ficarei em casa. e) Sábado, ''''' ir ao clube, irei ao sítio. 4- Relacione o efeito de sentido da palavra *até* nas frases a seguir, utilizando uma destas indicações: limitação, inclusão, aceitação. a) "Ele já não lhe deu tanto? Em ações,/prédios, garagens, carros, caminhões,/*até* usinas, negócios de louco..." b) "[...] seu coração *até* aqui de mágoa." c) Creonte disse a Jasão: ¨ -- Seu plano *até* que é interessante. d) "Eu sei *até* que ponto ele se vira." e) Creonte *até* que apoiava o casamento de sua filha com Jasão. f) *Até* Creonte apoiava o casamento de sua filha com Jasão. 5- Releia estas três falas de Creonte. • "Você?... Bem, *Jasão*,/pra ser sincero, você não tem nada..."

• "Boa, *menino*.../Malandro de repente, eu já sabia/que tinha carne embaixo desse angu." • "Muito bem. É com esse capital,/*seu Jasão*, que você quer ser meu sócio?" ¨ Os termos em destaque exercem função sintática de *vocativo*. Com dois desses vocativos, Creonte procura desvalorizar Jasão e, assim, mostrar-se superior a ele. Indique esses termos e justifique sua resposta. <59> 6- Compare. ¨ 1. "Eles lhes dão dez anos, o senhor dá um *só* pelos meus planos..." ¨ 2. Eles lhe dão dez anos, *só* o senhor dá um pelos meus planos. ¨ Se Jasão tivesse empregado a frase 2, e não a 1, o sentido seria o mesmo? Justifique. õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo DEBATER Na história da peça *Gota d'água*, Jasão compõe um samba que começa a ser tocado com sucesso nas rádios. Ele, então, separa-se da mulher, abandona os amigos, muda-se do conjunto residencial e marca o casamento com Alma, a jovem filha do milionário Creonte. Como vimos no trecho analisado, Jasão tenta tornar-se sócio de Creonte, usando como "capital" o conhecimento que tem do modo de agir e pensar do povo. Ele tenta mostrar a Creonte que há um meio mais eficiente e lucrativo de explorar os moradores do conjunto habitacional. A classe realizará um debate coletivo a partir do seguinte questionamento: Jasão deve ser recriminado, isto é, criticado pelo que fez, ou sua atitude deve ser aceita, já que ele buscava uma

vida melhor e isso é um anseio natural de qualquer pessoa? õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo ESCREVER Leia estes dois textos. 1. TEXTO ORIGINAL *Os pobres homens ricos* "Dinheiro é a coisa mais importante do mundo." Quem escreveu isso não foi nenhum de nossos estimados agiotas. Foi um homem que a vida inteira viveu de seu trabalho, e se chamava Bernard Shaw [...]. Ele nos fala de alguns homens ricos: <60> "Homens ricos ou aristocratas com um desenvolvido senso de vida [...] têm enormes apetites sociais... não se contentam com belas casas, querem belas cidades... não se contentam com esposas cheias de diamantes e filhas em flor; queixam-se porque a operária está mal vestida, a lavadeira cheira a gim, a costureira é anêmica, e porque todo homem que encontram não é um amigo [...]". Esse "apetite social" é raríssimo entre nossos homens ricos [...]. E nossos homens de governo têm uma pasmosa desambição de governar. [...] Homens públicos sem sentimento público, homens ricos que são, no fundo, pobres-diabos -- que não descobriram que a grande vantagem real de ter dinheiro é não ter que pensar, a todo momento, em dinheiro... (Rubem Braga. *200 crônicas escolhidas*. Rio de Janeiro, Record, 1992.} 2. TEXTO MODIFICADO *Os pobres homens ricos* Bernard Shaw, que não vivia de explorar os outros, afirmou certa vez que a coisa mais importante do mundo é o dinheiro. Segundo ele, certos homens ricos, realmente preocupados com o desenvolvimento do conjunto da sociedade, não acham suficiente que eles e suas famílias vivam bem; querem que todas as pessoas vivam bem. Os homens ricos brasileiros e os políticos raramente pensam assim; quase nunca atuam no sentido de melhorar o conjunto da sociedade. Homens ricos desse tipo são infelizes, porque ainda não perceberam que o melhor de se ter dinheiro é não ter que ficar pensando só nisso o tempo todo. Você certamente percebeu que os conteúdos deles são semelhantes. As idéias e informações apresentadas no texto 1 também são apresentadas, em outras palavras, no texto 2. Dizemos, por isso, que o texto 2 é uma *paráfrase* do texto 1. Paráfrase é um tipo de texto que reapresenta as idéias principais e o sentido geral de um outro texto, a partir do qual foi criado. ATIVIDADE Releia a sétima e a nona falas de Jasão, escolha uma delas e faça uma paráfrase. Escreva seu texto como se você fosse a própria personagem falando. Depois, junte-se a um(a) colega e comparem seus trabalhos, analisando as semelhanças e diferenças entre eles. õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo <61> GRAMÁTICA *Estudo da palavra* Como surgem as palavras de um idioma? A língua portuguesa é originária do latim e tem, segundo alguns estudiosos, em torno de quatrocentas e cinqüenta mil palavras. O *léxico* (conjunto de palavras de um idioma) cresce em função das necessidades que os falantes desse idioma têm de se comunicar e de denominar novos fatos, idéias e invenções. Não é difícil concluir, então, que o léxico é composto de palavras bem antigas e de palavras que foram "inventadas" mais recentemente. Apenas como curiosidade, vamos comparar as "idades" de três palavras: • *caderno*: palavra originária do latim, idioma que, há mais de dois mil anos, já era falado pelos antigos romanos. • *telefone*: palavra que nomeia um aparelho inventado em 1876. • *CD*: palavra que passou a fazer parte de nosso idioma há apenas alguns anos; tem origem no termo inglês *Compact Disc*.

FORMAÇÃO DE PALAVRAS DERIVAÇÃO Existem vários processos por meio dos quais as palavras se formam. Para começar a conhecê-los, veja o cartaz a seguir. _`[{conteúdo do cartaz_`] Está aberta a temporada de caça à dengue. O combate ao mosquito começa em casa. A palavra *temporada* formou-se a partir de *tempo*, à qual se juntou o sufixo -(r)*ada*. Assim: tempo + (r)*ada* :> temporada <62> Uma palavra formada a partir de uma única outra palavra ou radical chama-se derivada; a que não se forma de outra é denominada primitiva. Então: tempo :> palavra primitiva temporada :> palavra derivada O processo que dá origem a palavras derivadas denomina-se derivação. Compare agora estas três palavras derivadas. • descobrir: des (prefixo) + cobrir (palavra) • beleza: bel(o) (palavra) + eza (sufixo) • avermelhar: a (prefixo) + vermelh(o) (palavra) + ar (sufixo) Elas exemplificam os três tipos principais de derivação: prefixal, sufixal e parassintética. Derivação prefixal :> Dá origem a palavras através do acréscimo de *prefixos* a palavras já existentes no idioma. Exemplos: *des*cobrir *in*fiel *re*ligar Derivação sufixal :> Forma palavras através do acréscimo de *sufixos* a palavras já existentes no idioma.

Exemplos: sol*ar* prov*ável* fiel*mente* Derivação parassintética (parassíntese) :> Origina palavras através do acréscimo simultâneo de *prefixo* e *sufixo* a palavras já existentes. Exemplos: *a*vermelh*ar* *in*sol*ação* *des*alm*ado* <63> Os dois quadros a seguir apresentam, para consulta, alguns prefixos e sufixos empregados nesses três tipos de derivação. PREFIXOS _`[{a relação do quadro a seguir obedecerá à seguinte ordem: Prefixo -- Significado (idéia) -- Exemplos_`] a/ab/abs -- separação; distanciamento -- *ab*dicar, *abs*ter ambi; anfi -- duplicidade -- *ambí*guo; *anfí*bio anti; contra -- oposição; ao contrário de -- *anti*tetânica; *contra*por bi; di -- dois -- *bi*campeão; *dí*grafo co/com -- junto; em companhia -- *co*ordenar, *com*por ex -- movimento para fora -- *ex*pelir, *ex*portar hiper -- excesso -- *hiper*tensão, *hiper*trofia i/in; a/an -- negação; ausência de -- *in*útil; *a*normal in/im; en/em -- movimento para dentro -- *in*filtrar; *en*terrar pre; pró -- anterioridade -- *pre*ver; *pró*logo super -- excesso; posição acima de -- *super*dotado, *super*cílio supra; epi -- acima de -- *supra*citado; *epi*derme SUFIXOS _`[{a relação do quadro a seguir obedecerá à seguinte ordem: Sufixo -- Indicativo de -- Exemplos_`]

ada; al -- coletivo -- passar*ada*; laranj*al* ão/(z)ão; aço -- grau aumentativo -- livr*ão*, pãoz*ão*; chut*aço* ável; ível -- possibilidade -- lav*ável*; venc*ível* inho/(z)inho; ico -- grau diminutivo -- ded*inho*, pãoz*inho*; burr*ico* ite -- infecção -- hepat*ite*, gastr*ite* ismo -- teoria; doutrina -- romant*ismo*, capital*ismo* ório -- lugar -- escrit*ório*, vel*ório* ose -- nome científico -- mic*ose*, glic*ose* oso/osa -- excesso; bastante -- bond*oso*, perig*oso* <64> Além das derivações prefixal, sufixal e parassintética, existem outros dois tipos que, embora menos comuns, também dão origem a novas palavras: imprópria e regressiva.

Derivação imprópria :> Este tipo de derivação ocorre quando uma palavra muda de classe gramatical, sem sofrer alteração em sua forma. Veja, por exemplo, as palavras em destaque na ilustração. _`[{um homem fala_`] -- Entre o *falar* e o *fazer* há uma grande distância. As palavras *falar* e *fazer*, que normalmente pertencem à classe gramatical dos verbos, estão empregadas como substantivos. Ocorreu, nesse caso, uma derivação imprópria. Derivação regressiva :> Geralmente ocorre quando se formam substantivos a partir de infinitivos de verbos terminados em -*ar* ou -*er*. Nesse processo acontece a seguinte alteração: o verbo perde a terminação -*ar* ou -*er* e ganha a vogal *a, e* ou *o*, ori-

ginando assim o substantivo derivado. Observe. • Infinitivo: ameaç*ar* (-ar + a) Substantivo: ameaç*a* • Infinitivo: combat*er* (-er + e) Substantivo: combat*e* • Infinitivo: chor*ar* (-ar + o) Substantivo: chor*o* Substantivos formados por derivação regressiva: ameaça, combate, choro. <65> EXERCÍCIOS 1- Reescreva as frases, substituindo a lacuna por uma palavra equivalente à expressão em destaque e formada pelo processo indicado entre parênteses. a) Ele tem mania de colecionar coisas *sem utilidade*. ¨ Ele tem mania de colecionar coisas ''''' (derivação prefixal) b) A prefeitura vai *fazer novamente* a ponte destruída pela chuva. ¨ A prefeitura vai ''''' a ponte destruída pela chuva. (derivação prefixal) c) Às margens do riacho crescia *uma plantação de milho*. ¨ Às margens do riacho crescia um ''''' (derivação sufixal) d) O professor ia *tornar clara* à diretora nossa posição. ¨ O professor ia ''''' à diretora nossa posição. (derivação parassintética) 2- Considere as palavras derivadas *espelhar* e *esfarelar*. a) De que palavras elas derivam? b) Elas seguem o mesmo processo de derivação? Justifique. 3- Muitas palavras utilizadas no dia-a-dia não são atualmente percebidas pelos falantes como derivadas, porque são empregadas num sentido bem diferente do de sua primitivas. Indique as primitivas de:

a) prateleira b) armário c) serpentina d) carteira e) espalhar f) doente 4- Leia. "Língua torta: portão menor que porta" (Millôr Fernandes) a) Nesse micropoema aparece uma palavra primitiva e uma derivada dela. Transcreva-as. b) Indique o processo de formação da derivada. c) O elemento estrutural que se juntou à primitiva exprime, normalmente, que idéia? d) Observe a ilustração e explique o argumento utilizado por Millôr Fernandes para justificar que a língua (idioma) é "torta".

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*? õ figura: desenho de uma casa o õ dando destaque a um *pequeno o õ portão* e uma *grande porta* o eieieieieieieieieieieieieieieieiei <66> *A oração no período* ORAÇÕES COORDENADAS Vamos, inicialmente, analisar a estrutura sintática de dois períodos simples. Os atores encenaram o último ato da peça. Os atores -- sujeito encenaram -- verbo o último ato da peça -- objeto direto O público deixou lentamente o teatro. O público -- sujeito deixou -- verbo lentamente -- adjunto adverbial o teatro -- objeto direto

Cada um desses períodos tem estrutura sintática própria e completa. Reunindo, em um só, esses dois períodos simples, temos: Os atores encenaram o último ato da peça e o público deixou lentamente o teatro. 1ª oração: Os atores encenaram o último ato da peça Os atores -- sujeito encenaram -- verbo o último ato da peça -- objeto direto 2ª oração: e o público deixou lentamente o teatro. o público -- sujeito deixou -- verbo lentamente -- adjunto adverbial o teatro -- objeto direto As duas orações, reunidas, passaram a constituir um período composto, mas cada uma continua apresentando sua própria estrutura sintática, que independe da estrutura sintática da outra oração. Quando isso ocorre, dizemos que as orações são coordenadas. Duas orações são coordenadas entre si quando têm estrutura sintática independente uma da outra. Quando as orações de um período são coordenadas, o período denomina-se composto por coordenação. TIPOS DE ORAÇÕES COORDENADAS Considere estas três orações coordenadas. (1) O cantor entrou no palco, (2) cumprimentou a platéia (3) e apresentou sua banda. Nesse período, observe que: 1º) as orações 1 e 2 são justapostas, isto é, não se relacionam por meio de conjunção. 2º) as orações 2 e 3 relacionam-se por meio da conjunção *e*. <67> A oração 3, pelo fato de apresentar conjunção, denomina-se sindética. As orações 1 e 2 são assindéticas.

Oração coordenada • assindética: não apresenta conjunção • sindética: apresenta conjunção Classificação das orações coordenadas Considere estes dois fatos, expressos por orações isoladas: No final da peça, os atores voltaram ao palco. Eles agradeceram os aplausos. oração 1 (fato 1): No final da peça, os atores voltaram ao palco. oração 2 (fato 2): Eles agradeceram os aplausos. O fato 2 pode ser considerado uma continuidade normal do 1, porque, quando os atores voltam ao palco, no final de uma peça, normalmente eles agradecem os aplausos recebidos dos espectadores. Os fatos 1 e 2 estão, portanto, somando-se um ao outro. Para deixar mais claro que esses dois fatos adicionam-se, podemos ligar as orações empregando uma conjunção conveniente. Veja: No final da peça, os atores voltaram ao palco *e* agradeceram os aplausos. *e* -- conjunção que indica soma, adição Agora vamos considerar estes fatos: No final da peça, os atores foram aplaudidos. Eles não agradeceram ao público. oração 1 (fato 1): No final da peça, os atores foram aplaudidos. oração 2 (fato 2): Eles não agradeceram ao público. Nesse caso, o fato 2 exprime o contrário do que normalmente acontece quando, no final de uma peça, os atores são aplaudidos. Podemos dizer, por isso, que 2 se opõe a 1. Reunindo as duas orações por meio de uma conjunção que torne mais clara a oposição entre 2 e 1, teremos: No final da peça, os atores foram aplaudidos, *mas* não agradeceram ao público. *mas* -- conjunção que relaciona fatos adversativos, isto é, opostos <68> Uma oração coordenada sindética, dependendo da relação que a conjunção estabelece entre ela e outra coordenada, pode ter cinco diferentes classificações. Assim: Aditiva: exprime, em relação à outra oração, uma idéia de *soma*, de *adição*. Conjunções coordenativas aditivas: e, nem (= e não), mas também. Exemplos: Arrumaremos nossas coisas *e* partiremos amanhã cedo. or. coord. assindética: Arrumaremos nossas coisas or. coord. sindética aditiva: e partiremos amanhã cedo. Ele não só é vaidoso, *mas também* é arrogante. or. coord. assindética: Ele não só é vaidoso

or. coord. sindética aditiva: mas também é arrogante. Adversativa: exprime, em relação à outra, uma idéia de *oposição* de *contrariedade*. Conjunções coordenativas adversativas: mas, porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto. Exemplos: O rapaz foi humilhado, *entretanto* não se ofendeu. or. coord. assindética: O rapaz foi humilhado or. coord. sindética adversativa: entretanto não se ofendeu O mágico era ótimo; o público, *porém*, não o aplaudia. or. coord. assindética: O mágico era ótimo or. coord. sindética adversativa: o público, porém, não o aplaudia No segundo exemplo, a conjunção está deslocada para o meio da oração. Alternativa: exprime, em relação à outra, uma idéia de *alternância* ou de *escolha* (opção). Conjunções coordenativas alternativas: ou, ou ... ou, ora ... ora Exemplo: *Ou* você nos conta a verdade, *ou* não o ajudaremos. or. coord. sindética alternativa: Ou você nos conta a verdade or. coord. sindética alternativa: ou não o ajudaremos Repare que, nesse exemplo, as duas orações apresentam conjunção, por isso as duas são coordenadas sindéticas. Conclusiva: exprime uma *conclusão* do fato expresso pela outra oração. Conjunções coordenativas conclusivas: logo, portanto, por isso. <69> Exemplos: Fizemos nosso trabalho, *portanto* estamos tranqüilos. or. coord. assindética: Fizemos nosso trabalho or. coord. sindética conclusiva: portanto estamos tranqüilos O ingresso é caríssimo, *por isso* pouca gente irá ao *show*. or. coord. assindética: O ingresso é caríssimo or. coord. sindética conclusiva: por isso pouca gente irá ao *show* Explicativa: exprime uma explicação (justificativa) para o fato ou a idéia da outra oração. Conjunções coordenativas explicativas: que, porque, pois. Exemplos: Talvez ele esteja doente, *porque* faltou às aulas hoje. or. coord. assindética: Talvez ele esteja doente or. coord. sindética explicativa: porque faltou às aulas hoje Não desarrume a casa, *pois* seu pai detesta isso. or. coord. assindética: Não desarrume a casa or. coord. sindética explicativa: pois seu pai detesta isso.

EXERCÍCIOS 1- Reúna, em um período composto, as orações de cada par, estabelecendo entre elas a relação de sentido indicada entre parênteses. a) O rapaz era inocente. O delegado não acreditou nele. (relação de oposição) b) Torno-me o melhor jogador do time. Abandono o vôlei. (relação de alternância) c) Ele se aborreceu com o fracasso. Abandonou a profissão. (relação de conclusão) d) Foi ao supermercado. Comprou alimentos para um mês. (relação de adição) 2- Leia este trecho da crônica *O mágico*, de Luis Fernando Verissimo. ¨ ["O mágico tentou o suicídio,] [mas a lâmina do seu punhal falso entrou no cabo] [e não na sua barriga."]

¨ Esse período é composto por três orações, conforme indicam os colchetes. a) Em uma das orações, o verbo está elíptico (subentendido). Aponte essa oração, identifique o verbo e explique por que não é necessário que ele seja empregado explicitamente. b) A palavra *síndeton* é grega e significa "conjunção". • A primeira oração é *sindética* ou *assindética*? • E as outras duas? c) Observe com atenção as relações de sentido lógico que se estabelecem entre as três orações e classifique-as. <70> 3- Leia esta história de humor. _`[{tirinha em três quadrinhos. Descrição a seguir_`] ¨ Quadro 1: "Doutor, minha cabeça está pesada e meu corpo todo dói." Fala Hagar. ¨ Quadro 2: "Um demônio entrou no seu corpo e está devorando suas entranhas." Diz o médico. ¨ Quadro 3: "HEIN?" Se espanta Hagar. "Ou então você está resfriado." Conclui o médico. ¨ (Dik Browne. *Hagar. ¨ Folha de S. Paulo*, ¨ 30/8/96.) a) Classifique as duas orações que compõem a fala de Hagar. b) Responda, com suas palavras, quais são as duas hipóteses que o doutor considera como as possíveis causas da doença de Hagar. c) Uma das falas do doutor é constituída por duas orações. Classifique-as. 4- Imagine que uma pessoa proprietária de um terreno esteja conversando com outra, interessada em comprá-lo. ¨ Pessoa A: -- O terreno é bom, mas é caro. ¨ Pessoa B: -- O terreno é caro, mas é bom. ¨ Explique por que é possível afirmar que provavelmente é B quem está vendendo o terreno. õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo APRENDER MAIS *Leitura complementar* *Teatro no Brasil* A atividade teatral no Brasil inicia-se com o teatro didático dos jesuítas, que tinha como objetivo a catequese dos índios brasileiros. O padre jesuíta de origem espanhola José de Anchieta, que viveu no Brasil no século 16, foi autor de vários autos sobre episódios do cristianismo. Tais peças foram as primeiras a serem escritas em terras brasileiras e <71> eram encenadas pelos índios, ao ar livre, sobre palcos improvisados em aldeias, igrejas e colégios da época. [...] Durante o restante do período colonial, o teatro brasileiro foi considerado mera imitação do teatro português. No século 18, porém, uma importante contribuição foi dada ao desenvolvimento da arte teatral em língua portuguesa pelo luso-brasileiro Antonio José da Silva, o Judeu, que introduziu a prosa na composição dos textos teatrais portugueses, até então escritos somente em versos. Suas comédias já registram em algumas passagens o coloquialismo da língua portuguesa falada no Brasil e muito do espírito satírico que seria encontrado mais tarde nas peças de Martins Pena, em meados do século 19. As peças de Martins Pena são a principal origem do tea- tro de costumes no Brasil e por esse motivo foram decisivas para a evolução do teatro brasileiro. [...] Sua peça *O juiz de paz na roça* influenciou toda a dramaturgia brasileira do final do século 19. [...] Na primeira metade do século 20, o único inte- grante da Semana de 22 a escrever peças teatrais foi Oswald de Andrade, autor de *O homem e o cavalo, A morta e O rei da vela*. [...] Nas décadas de 30 e 40, desenvolveu-se um gênero tea- tral de grande popularidade, o teatro de revista. Eram musicais leves, bem-humorados, cujas cenas eram independentes e abordavam tanto fatos e personagens políticos do período quanto o cotidiano dos personagens populares brasileiros, como o malandro carioca, o funcionário público, o delegado de polícia, o sambista, a mulata, o matuto etc. Nas décadas de 40 e 50, vários grupos e companhias teatrais se organizaram para revigorar a atividade teatral no Brasil [...] [e] foram responsáveis pelo lançamento de alguns dos mais importantes atores do teatro brasileiro no século 20, como Sérgio Brito, Paulo Autran e Fernanda Montenegro, entre ou- tros. Durante o mesmo período, destacaram-se autores como Nélson Rodrigues, Joraci Camargo, Jorge Andrade, Dias Gomes e diretores como Ziembinski e Adolfo Celi. [...] A década de 60 foi marcada pelo surgimento de novos grupos que procuravam a- profundar o conceito de um teatro autenticamente brasileiro, tanto nos temas quanto na linguagem e na estrutura dramática. Os principais grupos do período foram o Teatro de Arena, o Teatro Oficina e o Grupo Opinião, que lançaram autores como Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes, Plínio Marcos e João das Neves. Os realizadores desses grupos achavam que os personagens deveriam ter o rosto do povo brasleiro, mas que não deveriam ser apresentados de forma caricata. Os atores que se destacaram nesse período foram Lima Duarte, Mílton Moraes, Flávio Migliaccio, Paulo José, Dina Sfat, Zezé Mota e Mílton Gonçalves, entre outros. Os diretores mais importantes deste período são Augusto Boal e José Celso Martinez Correia [...]. Durante a década de 70, o desenvolvimento do teatro brasileiro foi muito prejudicado pela ação da censura do regime militar instalado no país a partir de 1964. As peças eram repetidamente censuradas e alguns artistas foram obrigados a se exilar. Com a volta gradativa das liberdades democráticas, a partir da década de 80, diretores como Augusto Boal e José Celso Martinez Correia voltaram a atuar no Brasil e se integraram novamente ao movimento teatral brasileiro. Entretanto, os diretores que mais se destacaram no período foram Gerald Thomas, com montagens ousadas e polêmicas, e Antunes Filho, que procurou retomar alguns temas nacionais, montando peças de autores como Nélson Rodrigues e adaptando *Macunaíma*, de Mário de Andrade, para o teatro. (*Nova enciclopédia ilustrada Folha*. São Paulo, Folha da Manhã S/A, 1996.) õxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo <72>

UNIDADE 4 LER O morador de um apartamento fazia um pouco de barulho à noite. Um de seus vizinhos reclamou. O morador, então, em vez de discutir e brigar, como muitas vezes as pessoas fazem nesses casos, escreveu a esse vizinho um interessante recado. *Recado ao senhor 903* *Vizinho*, Quem fala aqui é o homem do 1.003. Recebi outro dia, consternado (1), a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal -- devia ser meia-noite -- e a sua veemente (2) reclamação verbal (3). Devo dizer que estou desolado (4) com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1.003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1.003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1.003, me limito a leste pelo 1.005, a oeste pelo 1.001, ao sul pelo Oceano Atlântico, ao norte pelo 1.004, ao alto pelo 1.103 e embaixo pelo 903 -- que é o senhor. Todos <75> esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos (5) ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7, pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas -- e prometo silêncio. ...Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela". E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando (6) canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz. (Rubem Braga. *200 crônicas escolhidas*. Rio de Janeiro, Record, 1992.) SOBRE O AUTOR Rubem Braga nasceu em 1913 em Cachoeiro do Itapemirim (Espírito Santo) e faleceu no Rio de Janeiro em 1990. Suas crônicas, que podem ser consideradas verdadeiras "poesias", propõem mais autenticidade e afeição nas relações humanas e revelam um profundo amor à vida simples, às pessoas humildes e à natureza.

A PALAVRA NO TEXTO 1. consternado: muito triste; de ânimo abatido 2. veemente: enérgico; vigoroso; intenso 3. verbal: oral; falado 4. desolado: muito triste; inconsolável 5. bramir: fazer grande barulho; estrondear 6. entoar: cantar <76> ESTUDO DO TEXTO 1- É válido afirmar que o título do texto causa ao leitor um certo estranhamento? Justifique. 2- Pelas primeiras palavras do texto, pode-se perceber como é o relacionamento entre o cronista e o vizinho a quem ele enviou a carta. Caracterize esse relacionamento, justificando sua resposta. 3- Como o cronista está se sentindo em relação ao fato de ter incomodado o vizinho e de este ter-lhe feito uma reclamação? Transcreva do texto os dois adjetivos que confirmam sua resposta. 4- O autor da carta tem consciência de que o vizinho poderia tomar medidas enérgicas para resolver o problema. a) Quais seriam essas medidas? b) Ao fazer referência a essas medidas, o cronista está valorizando ou ironizando o modo como as pessoas se relacionam? Justifique. 5- Ao se referir aos moradores usando números e não nomes, o que o cronista está criticando? 6- Se classificássemos os moradores do prédio em "oceano" ou "lago", quem faria parte do primeiro grupo? E do segundo? Justifique. 7- Releia. ¨ "Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o *903* precisa repousar das 22 às 7, pois às 8:15 deve deixar o *783* para tomar o *109* que o levará até o *527* de outra rua, onde ele trabalha na sala 305." a) A que o cronista está se referindo com os números em destaque? b) Qual desses números exprime, nesse contexto, uma crítica irônica? Por quê? 8- O cronista não concorda com a frieza das relações humanas e com os "regulamentos sociais"; por isso, sonha com uma vida diferente. a) Como seria essa outra maneira de viver? b) Por que, segundo o narrador, seria importante viver como ele sonha?

9- A sua vida cotidiana assemelha-se mais à vida sonhada pelo cronista ou àquela que ele critica e ironiza? Explique sua resposta. <77> A LINGUAGEM DO TEXTO 1- Releia. ¨ "[...] ficamos reduzidos a ser dois números, dois números *empilhados* entre dezenas de outros." a) Qual é a palavra primitiva de *empilhados*? b) Indique que palavra substituiria *empilhados* se o cronista quisesse dizer que ele e o vizinho estavam: • numa jaula • num cárcere • entre paredes • numa prisão c) A palavra *empilhados* e as que você empregou em *b* seguem o mesmo processo de formação? Justifique.

2- Releia este trecho do texto. ¨ "[...] é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1.003. Ou melhor: é impossível ao *903* dormir quando o *1.003* se agita [...]" ¨ Explique por que as palavras em destaque são casos de derivação imprópria. 3- Considere as palavras destacadas nos enunciados abaixo. ¨ 1. "O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor *ainda* teria ao seu lado a Lei e a Polícia." ¨ 2. Mora no prédio há seis meses e *ainda* não conhece os vizinhos. ¨ 3. "Prometo sinceramente adotar, *depois* das 22 horas, de hoje em diante [...]" ¨ 4. Ele não dá a menor importância à família. *Depois*, é um irresponsável.

a) Em que frases essas palavras indicam tempo? b) Que expressão poderia substituir essas palavras nas outras duas frases? 4- Compare. ¨ 1. "[...] *apenas* eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído [...]" ¨ 2. Eu e o Oceano Atlântico fazemos *apenas* algum ruído [...]. ¨ Explique a diferença de sentido entre esses dois trechos. <78> 5- Compare. ¨ 1. Recebi outro dia, *tomado por um sentimento de profunda tristeza e abatimento*, a visita do zelador [...]. ¨ 2. "Recebi outro dia, *consternado*, a visita do zelador [...]" ¨ Agora, de acordo com esse exemplo, reescreva as frases, substituindo o trecho em desta-

¨ que por um dos seguintes adjetivos: exultante -- submisso -- arrogante -- frustrado -- sarcástico a) O síndico do prédio declarou, *tomado por um sentimento de superioridade e desprezo*, que me expulsa do prédio. b) O morador, *tomado por um sentimento de decepção por não ter conseguido o que queria*, mudou-se para um sítio. c) O funcionário executava, *tomado por um sentimento de inferioridade e obediência*, as ordens mais absurdas. d) *Tomada por uma imensa e incontida alegria*, a ganhadora do prêmio saiu gritando pelas ruas. e) O vizinho, *numa atitude de desrespeito e zombaria*, começou a ridicularizar o morador do 1.003. 6- De acordo com o exemplo, reescreva as frases, transfor-

mando o termo destacado em uma oração equivalente. • O zelador comunicou *a reclamação de um vizinho*. :> 1 oração • O zelador comunicou *que um vizinho reclamara*. :> 2 orações a) Os moradores reclamaram *do barulho do vizinho*. b) Queremos *sua opinião sobre o assunto*. c) Seria necessário *o empenho de todos na solução do conflito*. d) O síndico exigiu *a presença dos moradores à reunião*. õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo <79> VER Por volta de 1870, surgiu na França um movimento artístico chamado *Impressionismo*. Em seus quadros, os pintores impressionistas procuram captar os momentos cotidianos da vida, o prazer e a alegria de viver. O quadro abaixo foi pintado por Renoir em 1881 e retrata um grupo de amigos em um pequeno restaurante às margens do rio Sena, na França. *?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*? õ figura: o quadro mostra mui- o õ tos jovens reunidos ao ar o õ livre, conversando e beben- o õ do. Sobre uma mesa, há gar- o õ rafas, copos, taças, frutas, o õ potes e flores o eieieieieieieieieieieieieieieieiei 1- O artista empregou nessa obra as cores do arco-íris, as prediletas dos impressionistas. Essas cores e a luminosidade do quadro combinam com o ambiente e o momento retratado? Justifique. 2- Renoir, além de ter sido um mestre na criação de figuras humanas e de paisagens, foi também hábil pintor de naturezas-mortas. Identifique, no quadro, alguns elementos desse tipo e conclua o que é, em pintura, natureza-morta. 3- A que parte do texto *Recado ao senhor 903* podemos associar essa pintura? Por quê? ================================== ç peça orientação ao professor y gggggggggggggggggggggggggggggggggg õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo <80> DEBATER No texto, dois vizinhos têm opiniões opostas a respeito de como viver: o senhor do 903 exige silêncio, respeito ao regulamento do prédio, obediência aos horários etc.; o do 1.003, diferentemente, propõe uma vida mais alegre, em que as pessoas sempre se reúnam para festejar "o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz". A partir dessas diferentes posições, a turma realizará um debate coletivo, tentando responder a esta pergunta: Qual dos dois vizinhos está com a razão? Ao final do debate, a turma deverá chegar a um consenso, isto é, a uma conclusão que sintetize a posição coletiva de seus integrantes. õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo ESCREVER ATIVIDADE 1 Os prédios de apartamentos dispõem de um regulamento interno, cuja finalidade é orientar os moradores e visitantes sobre o que é permitido, ou não, fazer no edifício. O cronista do texto *Recado ao senhor 903* sonha viver em um lugar em que as pessoas celebrem a amizade, a alegria, o dom da vida, o amor e a paz. Reúna-se com um(a) colega e, imaginando que esse lugar já exista, criem para ele um regulamento interno, a partir das seguintes orientações: • Dar um nome adequado ao modo de vida de seus moradores. • Dar um título: Regulamento interno do (pôr o nome). • Fazer o regulamento com, no mínimo, dez artigos (itens). Alguns deles deverão começar por "É permitido..." (ex.: *É permitido cantar a qualquer hora do dia ou da noite*); outros por "É proibido..." (ex.: *É proibido cultivar o egoísmo e a falsidade*.); outros ainda por "Recomenda-se..." (ex.: *Recomenda-se aos moradores que regularmente contemplem as noites de lua cheia e a beleza do céu*). <81> ATIVIDADE 2 Chama-se *carta circular* o tipo de comunicação em que o emissor (pessoa que envia a carta) utiliza várias cópias de um mesmo texto para se comunicar com diversos destinatários. A redação de uma circular obedece basicamente às seguintes orientações: • O texto deve ser de pequena extensão e escrito numa linguagem objetiva e simples. • A partir do texto original, redigido pelo emissor, são feitas as cópias (impressas ou fotocopiadas) a serem enviadas aos destinatários. • O texto não deve conter o nome do destinatário, já que será enviado a diferentes pessoas. Geralmente, emprega-se um vocativo genérico, que se aplica a todos os destinatários (*Caro morador, Senhor morador, Prezado cliente etc*.). • A data é colocada no alto da página e, um pouco abaixo dela, o vocativo genérico.

• No final do texto aparecem a assinatura, o nome e o cargo (ou função) do emissor. Imagine agora que você seja o síndico do prédio em que aconteceram os fatos narrados no texto *Recado ao senhor 903*. Baseando-se nas orientações acima, escreva uma *circular* aos moradores, convidando-os para uma reunião em que serão discutidos alguns assuntos de interesse de todos os condôminos. No texto, você deverá explicitar esses assuntos. õoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõoõo GRAMÁTICA *Estudo da palavra* FORMAÇÃO DE PALAVRAS COMPOSIÇÃO A palavra passatempo formou-se a partir de duas outras: passa + tempo. Dizemos, por isso, que ela é *composta*. As palavras compostas formam-se pelo processo de *composição*. Composição é o processo que forma novas palavras a partir de pelo menos duas outras palavras (ou radicais) que já fazem parte do idioma. <82> Outro exemplo: "A gente não pode dormir Com os oradores e os *pernilongos*" (Murilo Mendes) A palavra pernilongo formou-se a partir de outras duas: perna + longa. Passatempo e pernilongo são exemplos de composição, mas a junção das palavras primitivas que formam as duas ocorreu de maneiras diferentes. Compare. • passatempo (passa + tempo) :> As palavras que se unem estão apenas *justapostas* (colocadas uma ao lado da outra), sem modificação de suas formas primitivas. • pernilongo (perna + longa) :> Na junção das duas palavras, uma delas sofreu alteração de forma: pern*a* -- pern*i*. Dizemos, por isso, que houve *aglutinação*. A composição pode, portanto, ser de dois tipos: • por justaposição: As palavras que originam a composta não sofrem nenhuma alteração de forma. Ex.: pontapé, vira-lata, girassol, quarta-feira. • por aglutinação: Pelo menos uma das palavras que originam a composta sofre alteração de forma. Ex.: planalto (plano + alto), aguardente (água + ardente). Radicais gregos e latinos Na formação de palavras da língua portuguesa, é comum o emprego de radicais latinos e gregos. Veja. Hipopótamos são animais herbívoros. Hipopótamo é formada por dois radicais gregos: • *hipo* -- cavalo • *potamo* -- rio Herbívoro é formada por dois radicais latinos: • *herbi* -- erva, capim • *voro* -- que come <83> Os quadros a seguir apresentam alguns radicais gregos e latinos comumente empregados na formação de palavras de nosso idioma. _`[{a relação do quadro a seguir obedecerá à seguinte ordem: radical -- significado -- exemplo_`] Radicais gregos agon -- luta -- ant*agon*ista antropo -- homem -- *antrop*ólogo cracia -- poder -- demo*cracia* crono -- tempo -- *cronô*metro demo -- povo -- *demo*cracia fobia -- medo; aversão -- foto*fobia* hidro -- água -- *hidro*grafia logia -- estudo -- bio*logia* morfo -- forma -- *morfe*ma psico -- alma; espírito -- *psicó*logo quilo -- mil -- *quilô*metro sema -- sinal -- *semá*foro teo -- deus -- *teo*logia zoo -- animal -- *zoo*lógico Radicais latinos agri -- campo -- *agri*cultura cida -- que mata -- formi*cida* color -- cor -- *color*ido frater -- irmão -- *frater*no lac -- leite -- *lác*tea pisci -- peixe -- *pisci*cultura tri -- três -- *tri*color vidi -- ver -- *vid*ente voro -- que come -- carní*voro* <84>

OUTROS PROCESSOS DE FORMAÇÃO Além da *derivação* (estudada na unidade anterior) e da *composição*, existem alguns outros processos de formação de palavras. A *onomatopéia* e a *sigla* são dois deles. ONOMATOPÉIA Nesta tira humorística, as palavras que imitam os barulhos que Hagar faz ao comer são exemplos de onomatopéia. _`[{descrição dos barulhos produzidos por Hagar ao comer e o comentário de Helga, sua esposa_`] -- Smack! Crunch! Grunt! Chomp! Burp! Slop! Glug! Glomp! Chaw! -- A parte mais difícil de ser casada com um *wiking* é se acos-

tumar aos constantes efeitos sonoros. (Dik Browne. *Hagar. Folha de S. Paulo*, 14/11/95.) Onomatopéia é a palavra através da qual se procura reproduzir um som, um ruído ou um outro barulho qualquer. Outros exemplos: tique-taque, zunzum, cricri, tchibum! SIGLA Nesse processo, a palavra nova se forma a partir da reunião das letras (ou sílabas) iniciais de um nome constituído por várias palavras. PROJETO TAMAR -- IBAMA TAMAR -- *Ta*rtaruga *Mar*inha IBAMA -- *I*nstituto *B*rasileiro do *M*eio *A*mbiente <85>

EXERCÍCIOS 1- De acordo com o exemplo, forme palavras a partir dos elementos propostos e indique o processo que deu origem à palavra. pedra + sabão = pedra-sabão (composição por justaposição) a) água + viva b) água + ardente c) bem + me + quer d) lobo + homem e) sorvete + eria f) es + claro + ecer 2- Leia estes dois trechos de poemas. 1. "Em cima do meu telhado, Pirulin lulin lulin, Um anjo, todo molhado, Soluça no seu flautim." (Mário Quintana. In *Para gostar de ler*, vol. 6. São Paulo, Ática, 1994.)

2. "Sino de Belém, como soa bem! Sino de Belém bate bem-bem-bem." (Manuel Bandeira. *Antologia poética*. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986.) a) Transcreva de 1 as palavras formadas por derivação sufixal. b) Nos dois trechos, ocorrem onomatopéias. Transcreva-as. c) Em qual dos trechos o poeta aproveita uma palavra com significado próprio para criar a onomatopéia? Justifique sua resposta. 3- Considere este trecho de lista telefônica. _`[{cidade e DDD_`] ¨ Santa Luzia (BA) -- 073 ¨ Santa Luzia (MA) -- 098 ¨ Santa Luzia (MG) -- 031

¨ Santa Luzia (PB) -- 083 a) O que significa a sigla DDD? b) Qual o DDD da cidade maranhense de Santa Luzia? <86> 4- Leia este trecho de notícia de jornal. ¨ SC proíbe novas construções ¨ na ilha do Mel ¨ A Secretaria do Meio Ambiente do Paraná proibiu a construção de novas casas e prédios na ilha do Mel por seis meses. [...] O objetivo é controlar e ordenar o uso e a ocupação do solo na ilha. ¨ (*Folha de S. Paulo*, ¨ 7/11/95.) a) De acordo com o título da notícia, que estado está proibindo

novas construções na ilha do Mel? b) Comparando o título da notícia com o texto, é possível notar que eles apresentam informações contraditórias, isto é, que não combinam entre si. Explique essa contradição. c) O erro da notícia está no título, não no texto. Levando isso em conta, substitua a sigla do título pela correta. 5- Explique o processo de formação e o significado dos neologismos destacados nas frases abaixo. a) "Na avenida Atlântica [...] um grupo de donos de cães fundou há dois anos o ‘*cachorródromo*‘." (*Folha de S. Paulo*, 26/1/97.) b) "[Em Alter do Chão, no Pará,] há só um telefone. [Se você for passear lá] [...] faça como os moradores, que se comunicam pelo sistema ‘*molecular*‘: moleques que percorrem a vila mandando recados." (*Folha de S. Paulo*, 26/10/95) c) "[...] pelas bandas do oriente o horizonte se ‘*cartãopostalizava*‘ [...]." (Mário de Andrade) *A oração no período* ORAÇÕES SUBORDINADAS Vamos comparar um período simples e um composto. Período simples: O morador do 1.003 admitiu o erro. O morador do 1.003 -- sujeito admitiu -- v. trans. dir. o erro -- obj. dir. Período composto: O morador do 1.003 admitiu que errou. 1ª oração: O morador do 1.003 admitiu O morador do 1.003 -- sujeito admitiu -- v. trans. dir. 2ª oração: que errou -- obj. dir. <87> Acompanhando as indicações, fica fácil notar que: 1. as estruturas dos dois períodos são semelhantes; 2. no período simples, a função de *objeto direto* é exercida por um termo: *o erro*; 3. no período composto, a função de *objeto direto* é exercida por uma oração inteira: *que errou*. Esse tipo de oração, que funciona como termo de outra, recebe o nome de *oração subordinada*. A oração à qual a subordinada se associa chama-se *oração principal* e o período que apresenta essas orações denomina-se *período composto por subordinação*. Então, no período composto do exemplo, temos: Período composto por subordinação O morador do 1.003 admitiu que errou. oração principal: O morador do 1.003 admitiu oração subordinada: que errou. Esse tipo de período pode, portanto, ser assim esquematizado: Período composto por subordinação :> oração principal + oração subordinada Oração principal (Apresenta outra oração funcionando como termo dela.) Oração subordinada (Funciona como um termo -- sujeito, objeto, adjunto adverbial etc. -- da principal.) ORAÇÕES SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS Você já aprendeu que uma palavra pode ser analisada sob dois aspectos: quanto à classe gramatical (substantivo, pronome, adjetivo etc.) e quanto à função sintática (sujeito, objeto etc.). Vamos retomar o período simples anterior e observar a dupla classificação da palavra em destaque. O morador do 1.003 admitiu o *erro*. admitiu -- v. t. d. erro • classe gramatical: substantivo • função sintática: objeto direto (núcleo) Se trocarmos o termo destacado pela oração *que errou*, teremos o período composto equivalente. Assim: O morador do 1.003 admitiu *que errou*. admitiu -- v. t. d. que errou • "classe gramatical": "substantivo" • função sintática: objeto direto <88> Note que a oração *que errou* exerce a função de um termo (objeto direto) que, no período simples, é representado por um substantivo. Ela recebe, por isso, o nome de *substantiva*. Então, temos: que errou • é *oração* porque apresenta verbo; • é *subordinada* porque funciona como termo de outra oração; • é *substantiva* porque equivale a um termo representado por um substantivo; • é *objetiva direta* porque funciona como objeto direto. A conjunção que relaciona a oração subordinada substantiva à oração principal chama-se conjunção subordinativa integrante. Em geral, esse *papel* é desempenhado pelas palavras *que* e *se*. O período composto do exemplo em estudo fica, portanto, constituído assim: O morador do 1.003 admitiu *que* errou. O morador do 1.003 -- sujeito admitiu -- v. t. d. que -- conjunção subordinativa integrante or. principal -- O morador do 1.003 admitiu or. subordinada substantiva objetiva direta -- que errou

Classificação das orações subor- dinadas substantivas As orações subordinadas substantivas podem ter seis classificações, dependendo da função sintática que exercem no período. Veja o quadro. _`[{o conteúdo do quadro obedecerá à seguinte ordem: função da oração substantiva no período e classificação_`] • sujeito -- oração subordinada substantiva *subjetiva* • objeto direto -- oração subordinada substantiva *objetiva direta* • objeto indireto -- oração subordinada substantiva *objetiva indireta* • predicativo -- oração subordinada substantiva *predicativa* • complemento nominal -- oração subordinada substantiva *completiva nominal*

• aposto -- oração subordinada substantiva *apositiva* Para exemplificar os seis tipos de orações substantivas, será apresentada uma comparação entre o período simples (PS) e o composto (PC) correspondente. <89> Subjetiva PS :> Foi necessário *nosso retorno*. [= Nosso retorno foi necessário.] Foi -- v. lig. necessário -- predicativo nosso retorno -- sujeito PC :> Foi necessário *que* nós retornássemos. Foi -- v. lig. necessário -- predicativo que nós retornássemos -- sujeito or. principal: Foi necessário or. subord. substantiva subjetiva: que nós retornássemos

Outro exemplo: PS :> Ficou combinado o pagamento da conta. Ficou combinado -- verbo na voz passiva o pagamento da conta -- sujeito PC :> Ficou combinado *que* a conta seria paga. Ficou combinado -- verbo na voz passiva que a conta seria paga -- sujeito or. principal -- Ficou combinado or. subord. substantiva subjetiva -- que a conta seria paga Objetiva direta PS :> A sociedade exige a punição dos culpados. A sociedade -- sujeito exige -- v.t.d. a punição dos culpados -- objeto direto PC :> A sociedade exige *que* os culpados sejam punidos. A sociedade -- sujeito exige -- v.t.d. que os culpados sejam punidos -- objeto direto or. principal: A sociedade exige or. subord. substantiva objetiva direta -- que os culpados sejam punidos Objetiva indireta PS :> Os teus sócios desconfiam de tua honestidade. Os teus sócios -- sujeito desconfiam -- v. t. i. de tua honestidade -- objeto indireto or. principal: Os teus sócios desconfiam or. subord. substantiva objetiva indireta: de que tu sejas honesto Note que tanto o objeto indireto como a oração objetiva indireta são iniciados por preposição (*de*, no exemplo). <90> Predicativa PS :> Seu grande medo era o retorno do ex-chefe. Seu grande medo -- sujeito era -- v. lg. o retorno do ex-chefe -- predicativo PC :> Seu grande medo era *que* o ex-chefe retornasse. Seu grande medo -- sujeito era -- v. lig. que o ex-chefe retornasse -- predicativo or. principal: Seu grande medo era or. subord. substantiva predicativa: que o ex-chefe retornasse Completiva nominal PS :> Nossos amigos têm certeza de nossa inocência. Nossos amigos -- sujeito têm -- verbo certeza -- nome incompleto de nossa inocência -- complemento nominal PC :> Nossos amigos têm certeza de *que* somos inocentes. Nossos amigos -- sujeito têm -- verbo certeza -- nome incompleto de que somos inocentes -- complemento nominal or. principal: Nossos amigos têm certeza or. subord. substantiva completiva nominal: de que somos inocentes Compare os exemplos e observe que, da mesma maneira que o complemento nominal, a oração completiva nominal é iniciada por preposição. Apositiva PS :> Nós defendemos uma posição: o cancelamento do jogo. Nós -- sujeito defendemos -- verbo uma posição -- nome o cancelamento do jogo -- aposto PC :> Nós defendemos uma posição: *que* o jogo seja cancelado. Nós -- sujeito defendemos -- verbo uma posição -- nome que o jogo seja cancelado -- aposto or. principal: Nós defendemos uma posição or. subord. substantiva apositiva: que o jogo seja cancelado EXERCÍCIOS 1- De acordo com o exemplo, reescreva as frases a seguir, substituindo o termo em destaque por uma oração equivalente. A seguir, classifique-a. • Todos esperam *a renúncia do deputado*. ¨ a renúncia do deputado -- objeto direto • Todos esperam *que o deputado renuncie*. ¨ que o deputado renuncie -- oração subordinada substantiva objetiva direta <91> a) É recomendável *sua permanência na sala*. ¨ sua permanência na sala -- sujeito b) Ninguém me convence *da sinceridade dele*. ¨ da sinceridade dele -- objeto indireto

c) Ela estava certa *da volta do filho*. ¨ da volta do filho -- complemento nominal 2- Quando se empregam várias orações subordinadas substantivas em seqüência, o período não fica bem redigido, devido à repetição da conjunção integrante *que*. Observe. ¨ O professor confirmou [*que concluíra*] [que as provas demonstravam] [*que os alunos haviam evoluído no último semestre do curso*]. ¨ Reescreva esse período trocando as orações substantivas destacadas por substantivos de sentido equivalente. Faça as alterações necessárias. 3- Transcreva, de cada período, o complemento do verbo em destaque. A seguir, indique se esse complemento é representado por um *pronome*, por uma *expressão cujo núcleo é um substantivo* ou por uma *oração subordinada substantiva*. a) Poucas pessoas *notaram* nossa presença. b) O rapaz ficou irritado porque ninguém o *notou* na festa. c) Embora a turma fosse grande, o professor *notou* que um dos alunos havia faltado. 4- Numa praia de Ubatuba (SP), foi afixado o seguinte aviso: ¨ CACHORRO NÃO SABE QUE NÃO PODE IR À PRAIA. VOCÊ SABE! SAFO a) Classifique a oração introduzida pela conjunção integrante *que*. b) No segundo período, a oração que completa o verbo *saber* está subentendida. Acrescente-a depois desse verbo, de modo que o período tenha: • o sentido pretendido pelo autor do aviso.

• um sentido inadequado, diferente do pretendido pelo autor do aviso. õxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo Fim da Segunda Parte